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segunda-feira, 8 de junho de 2015

A Parada LGBT de São Paulo - Provocação? Manifestação? Ou grito de socorro?

Compartilhei o texto a baixo no Facebook a fim de deixar ali também a minha opinião a respeito do assunto. 

(Fotografia tirada na Parada LGBT em São Paulo no último domingo 07/06)


(Fotografia tirada na Marcha das Vadias durante a passagem do Papa Francisco pelo Brasil.)
"Darei minha cara a tapas. Sua fé foi ofendida? Seu (meu também no caso) Cristo foi desrespeitado? Todo o movimento LGBT agiu na blasfêmia? Você vai me julgar por ser contra sua opinião? Achou chocante a imagem de uma trans encenando a crucificação de Cristo?
Pois é muita coisa choca, muita coisa ofende, muitos são julgados.
A questão que estou dando minha cara a tapa não é pelos que enfiaram um crucifixo no ânus, não é pelos que atacam a religião alheia, muito menos por aqueles que querem respeito desrespeitando os demais,estou dando minha cara a tapas é pela encenação ÚNICA e de maior destaque que ocorreu na parada gay deste último domingo, pela trans que teve coragem de encenar a crucificação de Jesus Cristo, assim como os cristãos fazem todo ano na Páscoa, assim como todos que tem fé e usam a imagem da crucificação como lembrança de que o maior salvador passou para tal libertação da humanidade, a diferença é que foi uma trans que encenou isso como pedido de SOCORRO e não um ator lindo dos olhos azuis no dia do Natal ou na Páscoa, nem em uma peça teatral na igreja. Eu abomino todo tipo de zombaria com a fé alheia até porque além de ser homossexual, eu sou de uma religião que sofre com a intolerância. Abomino o julgamento que estão fazendo por uma encenação na qual a mensagem transmitida era, assim como Jesus Cristo foi crucificado pela maioria, muitos de nós ainda somos nos tempos de hoje, não só na cruz mas em assassinatos de diversos tipos, xingamentos e ofensas. Ressalto, não apoio ou concordo com (parte da) a manifestação da Marcha das Vadias que ocorreu no brasil durante a passagem do Papa por aqui e que muitos estão misturando as fotos com as da parada gay, sendo que não tem NADA A VER. Não achei bonito, não achei lindinho a encenação, eu achei CHOCANTE, achei FORTE pois nem todos estão preparados para ver. Mas horrorizada também não estou pois consegui abrir minha mente um pouco pra interpretar o que foi dito nessa manifestação, diferente dessa grande maioria que fecham os olhos para o real grito de socorro dessa manifestação, fecham os olhos para outras "regras" citadas na bíblia pra focar na homossexualidade e gritar "É UM DESRESPEITO COM A FÉ, BLASFÊMIA CONTRA JESUS, BLÁ-BLÁ-BLÁ". Antes de sair atacando, procurem saber de onde saíram todas as imagens e informações que as pessoas que vocês seguem cegamente compartilham na sua linha do tempo. Procurem saber de quando foi, porque foi, e se realmente foi. Se informem pra não passarem por fanáticos religiosos, hipócritas que só sabem apontar o dedo. Procure a fonte de cada notícia antes de compartilhar pois a internet é como a fofoca, quanto mais babado mais se alastra e mais polêmica causa. "LUCAS 6:37 Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai sempre, e recebereis sobre o vosso colo uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante; generosamente vos darão. Portanto, a medida que usares para medir o teu próximo, essa mesma será usada para vos medir. - Parábola do cego que conduz outro cego." A você que segue a bíblia, não seja hipócrita em focar apenas no que condena os homossexuais. Se você quer viver de acordo com a bíblia, não faça tatuagens, não cometa adultério, não faça a barba, não use adornos, e siga outras milhares de rigorosas "regras" que a bíblia cita para todos, não só para alguns. Não sejam hipócritas em seguir apenas aquilo que lhe convém. Não dá pra ser meio cristão. Não dá pra ser meio justo. Não dá pra ser meio certo. Você que é machista, você que é uma fofoqueira, você aí que bate na sua mulher, e você que faz inferno na vida da sua irmã de religião, você que procura o religiões obscuras para fazer mal para o outro, você que abandonou seu filho e até aquele seu cachorro, não sejam hipócritas. Entre mil outras coisas e pecados que diariamente todos cometem, precisamos entender uma única coisa: eu posso salvar apenas a minha alma. Você pode salvar apenas a sua. A única pessoa que você tem o direito de julgar é você mesmo, e ainda assim para que sirva para o seu próprio crescimento pessoal e espiritual. 
Não me venham com argumentos fracos, dizendo que que essa imagem ofendeu o seu (meu também) Cristo, me prove que a placa acima da trans crucificada não é um pedido de socorro! Poderia ter outras formas de falar isso? Poderia sim, e todos os dias isso é feito. Mas ninguém olha pras minorias, então temos que jogar luz sobre essas minorias para que recebam devida atenção. Não essa atenção que muitos tem dado de maneira negativa. Todos os dias você sofre crucificação por algum motivo. Seja sua mãe brigando com você, seu pai, seu chefe te dando um esporro, uma pessoa religiosa te dando sermão pelas suas tatuagens, gente que come carne te xingando por não querer seguir os mesmos passos, gente querendo te enquadrar em padrões o tempo todo, e você vai ter coragem de agir da mesma maneira? Se você chegou até aqui e ainda tá com algo na ponta da língua pra retrucar tudo que foi falado aqui? Vai em frente! Comente! Expresse sua opinião também. (metade desse texto são palavras de Loma Lisboa , palavras com que me identifiquei muito e quis compartilhar também, com algumas pequenas alterações para expor também a minha opinião.)"

Então, eis que me vem o primeiro comentário: "Leandro Toledo E a imagem de Jesus beijando outro homem? Alias... Se citam Jesus como libertador, tem uma fonte, e essa é a Bíblia... E a mesma tem valores contrários ao que pregam o movimento LGBT, ninguém precisa concordar com ela, assim como nenhum hétero precisa pactuar das ideias dos LGBT, agora, se o motivo de discordância começa a ser tratado como HOMOFOBIA, ai sim a coisa fica ilógica, afinal, eu posso muito bem gostar de Rock, sem bater no pagodeiro, mas não sou obrigado a gostar do pagode ! Quem é, que seja, e se alguém discorda, beleza! Querer aplicar o que o movimento e impor ele na sociedade é diferente, todos tem direito de concordar ou não..."


Bom, eu particularmente não me senti nem um pouco ofendida com a representação de Jesus beijando outro homem. Jesus não morreu somente por héteros. Na cruz, Ele se identificou com os excluídos, os oprimidos, os marginalizados, e ao fazê-lo, assumiu em Si todos os nossos pecados e mazelas, sejam de que natureza forem, inclusive sexual. Não há dilema humano que não caiba na cruz. E Jesus, será que Se ofendeu? Ora, se Ele foi capaz de rogar perdão por aqueles que o crucificavam pra valer, duvido muito que tenha se ofendido com o que não passou de uma representação ARTÍSTICA. Não creio num Jesus ranzinza, insensível e incapaz de compreender nossas idiossincrasias e incongruências. Creio que do alto céu, Ele olhou com misericórdia aquelas milhões de pessoas que desfilavam na Avenida Paulista como ovelhas que não têm pastor. Quem sabe, Leandro Toledo, Jesus encontrou mais sinceridade em cima daquele trio-elétrico do que em cima de outros que desfilaram dois dias antes? Assim como encontrou mais fé num centurião romano idólatra do que nos religiosos escrupulosos que o seguiam. Concordo com você que se eu não gosto de feijão eu não sou obrigada a comer feijão, mas nem por isso vou matar o plantador de feijão. Só que nem todo mundo pensa assim, e essa violência sem explicação existe SIM e em GRANDE ESCALA. Todos tem o direito de concordar ou não, mas ninguém tem o direito de tentar barrar o direito de outro. Não adianta você querer escolher apenas um item da bíblia pra seguir e pregar, você como um fiel deve então seguir  à risca cada palavra da bíblia, pois nem assim te daria o direito de julgar. Nem todo mundo é obrigado a seguir a bíblia ou alguma religião. Se alguém luta pela união de pessoas do mesmo sexo, por que você vai lá interferir e pedir que não seja aprovado, sendo que vivemos em um país LAICO, onde não deve ser regido por religião alguma? Você se acharia no direito não sendo gay? Se você não é gay, se a lei não te atinge, não te diz respeito, por que te incomoda tanto? Como eu disse anteriormente, você salva apenas a SUA alma. A de mais ninguém.  
Essas manifestações e tentativas de criminalização da homofobia, machismo, racismo e todo tipo de preconceito e violência,  são uma das MUITAS tentativa de jogar luz sobre aquelas minorias que ninguém vê. Que todo mundo julga, pois é mais fácil fazer parte da maioria, ter mais gente que defende sua opinião, o que te faz pensar cada vez mais que você está certo e pronto. 
Eis que nascem misandria, racismo reverso, heterofobia, cristofobia e cisfobia, o que não existem como preconceitos institucionalizados. Por que não existem? Deixo aqui pra vocês um texto perfeitamente explicativo que encontrei e concordei no blog Bule Voador:


Reflexões sobre a origem dos preconceitos e porque misandria, racismo reverso, heterofobia, cristofobia e cisfobia não existem como preconceitos institucionalizados


Discriminação* (distinção) de grupos foi uma característica muito importante na evolução da vida em grupo. Não é nenhuma novidade que tanto grupos de animais sociais não-humanos quanto grupos humanos identificam dois grupos sociais: o ”nós” e os “outros” (em psicologia evolutiva chamados “insider” e “outsider group”). Não surpreendentemente, “bárbaro” era o nome dado pelos gregos aos que não eram gregos. “Bárbaros” significa “os outros”. Da mesma forma, “tapuia” era o nome dado pelos Tupis a quem não era Tupi. Tapuia é a versão tupi de “os outros”. Também não surpreendentemente, bárbaros e tapuias recebiam significados pejorativos. “Os outros” não são somente os outros, eles geralmente são também os inimigos. Os outros não são “civilizados”, os outros não têm nossos costumes, os outros são violentos, os outros são maus, os outros não seguem nossos deuses (que são os únicos verdadeiros), os outros tem comportamentos estranhos que não são os nossos, os outros nos trazem doenças, os outros comem nossa comida, os outros nos matam, os outros merecem ser combatidos. Em suma, o inferno são os outros.


O "nós" e "os outros"

Não é muito difícil pressupor porque “os outros” são geralmente associados a coisas ruins e à violência. Grupos competem entre si. Grupos de animais da mesma espécie competem pelo mesmo recurso, mesmos alimentos, mesmo tipo de território preferido e mesmas condições ambientais ideais. A vida em grupo evoluiu trazendo vários benefícios ao sucesso de um indivíduo e de seus companheiros, mas também trazendo uma competição intergrupal.

A discriminação (distinção) de grupo resulta em união e cooperação dos membros. Cooperar com o “nós” para vencer “os outros”. Cooperar com os próximos para vencer os competidores. Cooperação necessita de empatia. Não surpreendentemente, a maioria dos grupos animais são formados por unidades familiares, afinal é mais fácil cooperar e confiar na cooperação de um familiar.

Mas note que nem sempre o “nós” e os ”outros” são inimigos. Muitas vezes estes cooperam. Geralmente os grupos cooperam quando existe uma grande recompensa suficiente para ambos, ou um grande inimigo (um “os outros” mais poderoso) e quando o risco de traição do grupo com o qual se coopera é menor do que o risco da não cooperação, ou se um grupo domina e escraviza o outro obrigando-o a “cooperar”. Volte aos livros de história e analise as cooperações entre povos humanos ao longo dos séculos.

Entretanto essa discriminação de grupos “nós” e “os outros”, presente nos animais que vivem em grupo, não exatamente corresponde ao preconceito humano. O preconceito humano evoluiu em função da vida social permitindo um maior sucesso na sobrevivência ao conseguir comida, água e abrigo (nada surpreendente até agora), mas foi carregado de particularidades humanas como religião e aspectos culturais e de dominação.

Existe também uma discriminação intragrupo originada de uma hierarquia e dominação interna que cria subgrupos. Para manter-se coeso socialmente, um grupo necessita de uma organização social. A evolução de uma estrutura social foi totalmente baseada em dominação. Quem domina cria a organização e cria as regras. As discriminações intragrupais aparecem para manter a ordem e a vontade de quem criou a estrutura social do grupo. Tal estrutura varia de espécie para espécie, então entraremos agora ao que realmente nos interessa: o ser humano.
Uma das mais antigas discriminações intragrupais é a discriminação (segregação) de mulheres em relação aos homens. Os homens dominaram, formaram seu grupo “nós” e relegaram as mulheres aos “os outros”. Segundo Simone de Beavior, em o Segundo Sexo: “A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro”.  Obviamente a dominação masculina não foi regra em todos os grupamentos humanos. Em algumas exceções, um tanto raras, a dominação feminina foi a regra. Quais fatores podem ter levado ao surgimento de sociedades patriarcais ou de sociedades matriarcais é um assunto bem interessante e um tanto complexo sobre o qual podemos nos debruçar em outra oportunidade. Com o passar dos anos e com a dominação de um grupamento humano por outro, as organizações sociais foram aos poucos se padronizando e se tornando mais homogêneas devido à imposição da estrutura social do dominador sobre a dos dominados. As sociedades patriarcais, que provavelmente já eram mais numerosas, dominaram as matriarcais e, com o decorrer da história de dominação mundial, se tornaram a regra.


Notem que os preconceitos são, então, originários de uma estrutura de dominação de classes (grupos). Um grupo domina o outro institucionalizando um preconceito. Nem sempre o preconceito institucionalizado se revela como maioria segregando minoria (os negros não são a minoria, os pobres não são definitivamente a minoria, as mulheres não de forma alguma a minoria), mas o preconceito sempre se revelará como uma tentativa dos dominadores de segregar os dominados.  Quando na África grupos de “nós” enfrentavam grupos de “os outros”, os quais todos eram negros, não fazia sentido existir segregação e fobia por negros. Faz sentido discriminar etnias inimigas, costumes distintos, religiões distintas, etc. No encontro de negros com brancos e com a dominação daqueles por estes, surgiu o racismo e o preconceito contra o negro. O mesmo com o racismo contra as populações americanas. Estes preconceitos só existem por um efeito de dominação. Existia obviamente a discriminação (distinção) de dois grupos. Os negros talvez, em relação à cor da pele, se sentiam “nós” e se diferenciavam dos brancos, “os outros”, que por sua vez se sentiam “nós” e discriminavam os negros como “os outros”. Entretanto esta discriminação só passou a ser um preconceito institucionalizado após a dominação econômica e cultural. O preconceito não é somente uma discriminação de grupos. Ele é fruto indissociável de uma dominação. Só existe preconceito institucionalizado se existe dominação de um grupo pelo outro.
A palavra “preconceito” possui as seguintes definições, segundo o Dicionário Priberam: “1. Ideia ou conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério ou imparcial. 2. Opinião desfavorável que não é baseada em dados objetivos. = INTOLERÂNCIA 3. Estado de abusão, de cegueira moral. 4. Superstição”. Assim, podemos trabalhar com dois significados básicos de preconceito: (1) conceito formado antes do conhecimento da causa/objeto/pessoa e (2) estado de abuso e cegueira moral ou seja segregação social e preconceito institucionalizado. Estes dois significados também refletem a origem dos preconceitos: primeiro se têm uma ideia (geralmente ruim) associada aos grupos de “os outros”, mesmo sem conhecê-los, e portanto, gera-se “argumentos” para a segregação e depois institucionaliza-se essa segregação massificando e normatizando o preconceito. Em ambos os significados é correto se usar a palavra preconceito, tanto em casos de desconhecimento de alguém acerca de algo que o leve a ter uma opinião errônea ou generalizada sobre o fato (por exemplo, um que eu escuto muito: “os alemães são fechados”) ou os casos de segregação social de negros, judeus, pobres, mulheres, ciganos, etc. Parecem um pouco diferente os dois casos, não é? Por que será? A resposta é dominação e institucionalização do preconceito.

Existem muitos grupos com os quais podemos nos identificar ou não: grupos raciais (brancos, negros, indígenas, asiáticos), grupos religiosos (cristãos, muçulmanos, budistas, judeus, ateus), grupos sexuais (héteros, homos, bissexuais, transexuais), grupos de gênero (homem, mulher, neutro), grupos sociais (pobres, ricos, classe média, burgueses, operários), grupos políticos (esquerdistas, direitistas, comunistas, liberalistas, chavistas, anti-chavistas), grupos ideológicos-culturais (veganos, carnistas, hippies, geeks, nerds, otakus, punks, funkeiros, metaleiros) e nem sempre esses grupos são dicotômicos e mutuamente exclusivos. Você pode ser uma mulher, negra, cristã, homo, pobre, vegana e otaku, porque não? É claro que muitos grupos estão relacionados histórica, ideológica e economicamente a outros grupos o que dificulta a identificação de uma pessoa com dois deles (por exemplo, rico e esquerdista ocorre em uma frequência bem baixa).  E note que nem sempre tais grupos sofrem preconceitos. Assim, por mais que existam pessoas que achem os metaleiros um bando de seguidores satânicos, não existe um preconceito institucionalizado contra os metaleiros porque eles, como grupo, não são dominados por outro. Em contrapartida, os funkeiros são passíveis de preconceito institucionalizado não exatamente por sua música, mas por, na grande maioria de casos, pertencerem a outros grupos dominados como o grupo dos “negros ou pardos” e dos “pobres”. Como os grupos são ligados por aspectos histórico-sociais, ideológicos e econômicos, o preconceito de um grupo pode recair sobre um subgrupo que tenha uma parcela representativa de pessoas do grupo em questão. Os metaleiros não sofrem um preconceito institucionalizado, mas sim um discurso de discriminação grupal. O que obviamente não o torna aceitável. Se alguém sugerisse que todos os metaleiros deveriam ser presos por louvarem satã, esta pessoa estaria promovendo um discurso de ódio contra um discriminado grupo, entretanto, como o discurso de tal pessoa não é um preconceito aceito como normal e institucionalizado na sociedade, esse discurso nunca teria poder de lei. O que talvez não fosse realidade para os funkeiros.
Como preconceito é dominação, ele se institucionaliza através de leis (ou da falta de leis) ou através de aparelhos de controle social (estado, escolas, mídia, igreja, universidade). Ele se faz valer na justiça, nas conquistas sociais e na segregação social. Os dominadores possuem órgãos e instituições que proferem seus discursos preconceituosos, os legitimam, os normatizam, os disseminam, os dão força de lei e sustentam toda a base do preconceito e da dominação. Assim surgem até mesmo dominados que aceitam o ódio e justificam a segregação sofrida pelo seu próprio grupo. O preconceito institucionalizado vem sempre dos dominadores, nunca dos dominados.
Mas os dominados podem se discriminar (distinguir) como um grupo e proferirem discurso de segregação contra o grupo dos dominadores. Mas este discurso discriminatório, mesmo que às vezes se torne um discurso de ódio e portanto lamentável, não reflete um preconceito institucionalizado, pois ele não tem base que o sustente, não é amplamente aceito na população e não vem dos dominadores que são os únicos que possuem poder de legitimar discursos socialmente. Assim, misandria, racismo reverso, heterofobia, cristofobia e cisfobia não existem como preconceitos institucionalizados.

Notem que eu não concordo com posturas misândricas, ódio aos brancos, aos héteros, aos cristãos, aos cis. E esses discursos não se tornam aceitáveis por não serem preconceitos institucionalizados. O que estou concluindo é que preconceito é mais que discurso de segregação. Preconceito é institucionalização de discurso de segregação. Pronto, simples. O que isso muda e porque isso é importante? Muitas vezes esses esparsos discursos de segregação (e os raros discursos de ódios) travestidos de preconceitos institucionalizados servem de falácias e armas em “lutas” fictícias. A criação desses termos e a tentativa de incluí-los como “preconceitos” mesmo não tendo base social é uma estratégia para desviar o foco e criar uma falsa sensação de “igualdade” de discriminação: misoginia – misandria; homofobia – heterofobia; racismo – racismo reverso; transfobia – cisfobia. Tal dualidade de preconceitos, entretanto, é aparente e não se revela na estrutura de dominação social.

Mas, os discursos de segregação dos grupos dominados não são uma postura ruim? Se você acha, por exemplos, que vegetarianos são desnutridos ou que funk é um lixo, você está proferindo um discurso de segregação. Esses discursos são muito comuns (principalmente em piadas. Que geralmente são defendidas como sendo “só piadas”) e geralmente você só os perceberá se alguém os proferir contra um grupo com o qual você se identifica (pimenta no olho dos outros é refresco). Diariamente você é exposto a discursos de segregação contra vários grupos com os quais você não se identifica e isso não te traz a menor reflexão ou estranhamento. Discursos de segregação são ruins também, e podem originar discursos de ódio, e todos devem ser combatidos com discussões e informação. Entretanto quando se mascara um discurso de segregação de dominados de preconceito institucionalizado, se criam falácias e se tira o foco do preconceito real: aquele que realmente é institucionalizado, aquele que mata, que violenta, que é legalizado, que é maioria e que domina. A compreensão do cenário de dominação social se torna, então, imprescindível para não cairmos em armadilhas do discurso e para entendermos melhor a sociedade que nos ronda e seus preconceitos e grupos.

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*Discriminação. Tenha em mente que discriminar também significa distinguir (significado 1). A evolução dos preconceitos segue a mesma lógica do desenvolvimento dos significados da palavra “discriminação”: Primeiramente, distinção de grupos; segundo, segregação e terceiro, preconceito institucionalizado. Segundo o dicionário Priberam:

Discriminação: 1. Ato ou efeito de discriminar (ex.: o exercício envolve discriminação visual). = DISTINÇÃO. 2. Ato de colocar algo ou alguém de parte. 3. Tratamento desigual ou injusto dado a uma pessoa ou grupo, com base em preconceitos de alguma ordem, notadamente sexual, religioso, étnico, etc.


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